
autora:Cynara Menezes
Fonte:Carta Capital
Era uma vez um castelo nas verdes pradarias de Minas Gerais. E era uma vez o dono do castelo, Sir Edmar Moreira. Nobre de coração puro, Sir Edmar havia sido eleito corregedor da távola redonda, mas sentia-se mal em cumprir a função e incomodar os colegas, todos tão nobres quanto ele. Cassá-los, então, parecia um ato extremo e injustificado em qualquer situação. O nobre sempre fora compreensivo com os companheiros e espera o mesmo comportamento deles. Mas eis que o exército inimigo lançou uma ofensiva contra o castelo e Sir Edmar, abandonado pelos cavaleiros da távola, não resistiu.
Assim um cínico trovador medieval poderia começar a história do deputado Edmar Moreira (DEM-MG), obrigado a renunciar ao posto de corregedor da Câmara na última semana depois que pipocaram imagens de seu castelo, construído em São João Nepomuceno e avaliado em mais de 20 milhões de reais. Para o lugar de Moreira na corregedoria foi eleito o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), que iniciou uma ofensiva de mudança da sua própria imagem.
A eleição de ACM Neto não resolveu uma questão: pode um mesmo parlamentar ser o segundo vice-presidente da Câmara e responsável por fiscalizar seus pares?
No auge da discussão, todo mundo falou em separar imediatamente as duas atividades, considerando que um integrante da mesa diretora não seria o mais apto a presidir inquéritos que envolvam deputados. Depois da renúncia, a desvinculação foi empurrada para ser debatida em uma comissão especial. Por ora, ACM Neto, que não teve oponente na disputa, acumulará as duas funções.
Antes de ser descoberto que o dono do castelo Mona Lisa estava imerso num fosso de denúncias, o próprio Moreira deu a deixa para o questionamento do conflito de interesses, ao declarar ser contrário aos julgamentos na Câmara. Ele alegou que os deputados não têm “poder de polícia” e que o clima na Casa, de “fraternidade entre colegas”, não favorece o rito sumário. Quando integrou o Conselho de Ética, o colega Edmar votou contra a cassação de sete parlamentares envolvidos no chamado escândalo do “mensalão”.
O pecado de Sir Edmar foi, na verdade, a vaidade. Se continuasse a manter, como bom mineiro, o perfil discreto, sua atuação parlamentar passaria em branco. Deputado há quatro legislaturas, o obscuro Moreira só ganhou maior destaque na imprensa com sua eleição à mesa diretora. Ao migrar do baixo clero à condição de integrante nobre da Câmara, vieram à tona várias irregularidades envolvendo seus negócios e, finalmente, o tal castelo, que o parlamentar aparentemente esqueceu de colocar na declaração de renda.
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